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sexta-feira, 18 de outubro de 2013

O SOM E A COR DA CULTURA AFRO BRASILEIRA




UNIVERSIDADE DO ESTADO DE MATO GROSSO- UNEMAT
CAMPUS UNIVERSITÁRIO DE TANGARÁ DA SERRA-MT
NÚCLEO DE EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS TABEBUIA AUREA
PROGRAMA NOVOS TALENTOS

 
                                             Iara Maria dos Anjos Viera[1]
                                                                     Liduína Maria de Sousa Pereira[2]
                                                                   Raquel Nunes Moreira Passamani Ramos [3]

                                                                       
Introdução

Este artigo é o resultado parcial de uma pesquisa historiográfica que, tenciona mostrar algumas das influências de nossas origens, sobretudo a africana, e as contribuições deixadas por elas na cultura brasileira, especialmente no que diz respeito à música e a dança. Para desenvolvê-lo, utilizamos como fonte de pesquisa uma considerável produção bibliográfica, entre outros nos subsidiaram: Lopes (2005), Munanga (2005), Conceição & Conceição (2010) e Santos (2006).

Pretendemos neste trabalho, comentar algumas das maiores marcas que a mãe África trouxe até nossa música nos porões dos navios e dentro da alma e da sensibilidade cultural de cada um de seus filhos, falamos em algumas, pois este espaço não nos permite que se enumerem todas, o que demandaria anos de pesquisa. 

Sabendo-se que o Brasil é um país no qual ainda existem várias formas de preconceitos, e sendo o preconceito racial – velado - talvez a forma mais perigosa e perversa desta mazela social, acreditamos que, trazendo à tona mais esclarecimentos que conscientizem as pessoas sobre a riqueza, importância e qualidade dos ritmos e danças criados por nossos ancestrais africanos, possam de alguma maneira contribuir para que se minimize o desconhecimento total ou parcial daquele que não percebe que sua matriz africana é parte constitutiva de sua identidade étnica e de nossa diversidade cultural. “Não ha superioridade ou inferioridade de culturas ou traços culturais de modo absoluto, não há nenhuma lei natural que diga que as características de uma cultura a façam superior a outras.” (SANTOS, 2006, p. 17).

Não se pode negar que os outros povos que contribuíram para a formação de nossa multiplicidade cultural, nos deixaram uma herança marcante. “[...] Além disso, a população nacional foi constituída com contingentes originários de várias partes do mundo. Tudo isso se reflete no plano cultural.” (SANTOS, 2006, p. 18), contudo optou-se aqui por uma ênfase na cultura africana, por acreditarmos ser esta vertente a mais emblemática e que melhor caracteriza o povo brasileiro, ou seja, um povo vibrante e predisposto à alegria, que embora não sendo grande conhecedor e/ ou cultuador de suas origens, a conduz em seu âmago. “Uma das coisas que quase todo mundo conhece, mas não sabe muito bem como demonstrar é que a política de um país reflete o modelo de sua cultura.” (GEERTZ, 1989, s/p.).

Quando se fala em diversidade, logo vem à mente as questões sociais e étnicas, mas não vamos priorizar aqui os males dos preconceitos, e sim, a nossa herança cultural africana. “A cultura tradicional africana não conhece a arte voltada apenas para o prazer ‘estético’. Nela, a ação artística tem sempre uma finalidade concreta.” (LOPES, 2008, p. 80).

 Acreditamos que a música e a dança, como arte, servem para alegrar o corpo e a alma de qualquer pessoa sensível a exposição rítmica. Assim, iremos ater-nos em falar da música africana, essa arte que, expandida à custa de muita dor e por isso mesmo usada para curá-la, só transmite contentamento. Além disso, a melodia africana contribuiu para a construção linguística e cultural em todo o mundo “A origem africana está presente no que é feito de mais importante na música popular contemporânea mundial.” (LOPES, 2008, p. 80).

A população brasileira originou-se de uma pluralidade étnica resultante de um processo histórico que colocou frente a frente três povos completamente diferentes: os indígenas (que eram milhões e de várias etnias – nos idos de 1500), os europeus (inicialmente os portugueses, seguidos por holandeses e franceses) e os africanos, oriundos de várias partes da África, em especial da Nigéria e Togo vieram os Nagôs de língua iorubá; de Benim, antigo Daomé, chegaram os Fons ou Minas, de língua jeje e de Angola, Moçambique, Zimbábue e Congo entre outros os Bantos de língua banta. 

Os indígenas sofreram um verdadeiro genocídio, contudo, os africanos foram sem dúvida, martirizados pelos colonizadores europeus. Eram sequestrados em suas terras, jogados em navios negreiros, e quando sobreviviam a todas as injurias da penosa travessia eram comercializados como qualquer mercadoria nas praças, feiras ou mercados públicos no Novo Mundo.

Porém, toda essa atrocidade, não apagou dos sobreviventes uma de suas características mais louváveis, sua musicalidade. A cultura trazida de seus mais remotos ancestrais foi gradativamente se espalhando por todo o continente e deixando marcas indeléveis por toda a América, Caribe e Antilhas.

Podemos constatar através de pesquisas do IBGE[4], que um grande contingente de descendentes diretos ou indiretos de africanos – a maioria- neste país em algum dos ramos de sua genealogia tem sangue africano correndo em suas veias, mas por ignorância ou preconceito, nega este fato ou não se reconhece como negro. Para referenciamos as questões identitárias, citamos Munanga:


O conceito de identidade evoca sempre os conceitos de diversidade, Isto é, de cidadania, raça, etnia, gênero, sexo,... Com os quais ele mantém relações ora dialéticas, ora excludentes, conceitos esses também envolvidos no processo de construção de uma educação democrática. (2005, s/p).


Hoje no Brasil muito se discute sobre a diversidade cultural, mas será que a sociedade conhece e respeita essa diversidade? Com tantas crenças, comportamentos e valores tão múltiplos? “É importante considerar a diversidade cultural interna à nossa sociedade; isso é de fato essencial para compreendermos melhor o país em que vivemos.” (SANTOS, 2006, p. 19). Acreditamos que em muitos casos a sociedade, ainda não conhece boa parte dessa multiculturalidade afro brasileira .

O reconhecimento das diferenças é singular, pois em um país continental como o Brasil, fazer uma junção ou reconhecer as questões culturais é muito complexo, pois em cada região existe uma cultura com todos os seus valores que implicam diretamente na do outro. Assim, não é muito comum percebermos toda essa variação, mas sim, uma imposição de padrões que interfere diretamente na construção da identidade cultural das etnias como, por exemplo, dos nativos brasileiros e dos brasileiros de descendência africana.


A afirmação da identidade e a marcação da diferença implicam sempre as operações de incluir e de excluir. Como vimos, dizer ‘o que somos’ significa também dizer ‘o que não somos’. A identidade e a diferença se traduzem assim em declarações sobre quem pertence e sobre quem não pertence, sobre quem está incluído e quem está excluído. (SILVA, [s/p.]).


Desta forma, buscamos nesta pesquisa utilizar a música como um vetor de chamamento à luz da informação, do conhecimento e da conscientização de que, reconhecendo-nos em nossas origens, com misturas étnicas, agregamos à nossa cultura o valor inestimável que ela tem, tornando-nos conhecedores de nossa identidade e ocupando o lugar social de sujeitos históricos que somos.

1. O ressoar dos batuques africanos na cultura musical brasileira[5]

A música brasileira tem uma grande contribuição dos batuques da África, pois foi graças aos tambores que, batiam para invocar divindades, ressoavam para exaltar a glória de um povo, um nascimento, para manifestar a tristeza de uma morte; para o que fosse os africanos deram a sua contribuição para a arte de cantar e de dançar no Brasil. “Na época colonial, a maior ou menor liberdade dos senhores em permitir aos escravos a prática de folguedos de sua tradição era decisiva na criação de uma música menos ou mais africana [...].” (LOPES, 2008, p. 81).

As primeiras manifestações musicais africanas das quais temos notícia, tiveram lugar nas senzalas ou nos campos de trabalho, quando nossos ancestrais negros, entoavam cantos de lamento ou louvação que alimentavam suas crenças. Utilizavam os parcos utensílios de que dispunham, numa tentativa frenética de contactar as entidades espirituais, utilizando para isso o atabaque, que é chave nos rituais de candomblé para louvar os orixás.

As canções que embalavam o sono dos herdeiros dos latifúndios imensuráveis e também de todos os homens, mulheres e crianças que ali trabalhavam até a exaustão, eram as cantigas solfejadas pelas negras, muitas vezes amas de leite dos filhos de seus senhores, canções estas que muito contribuíram para o processo de diversidade linguística.

No período de colonização brasileira, começaram a se popularizar as congadas, festas de coroação dos reis do Congo[6]. “Esses festejos realçados por muita música e dança, seriam não só uma recriação das celebrações que marcavam a entronização dos reis na África como uma sobrevivência do costume dos potentados bantos [...].” (LOPES, 2005, [s/p]). Ainda de acordo com o pesquisador, “esses cortejos [...] na forma de congadas, congados ou cucumbis (festa ligada aos ritos de passagem para a puberdade), eram influenciados pela espetaculosidade das procissões católicas do Brasil colonial e imperial”.

Podemos inferir que quando o mesmo pesquisador diz “[...] construíram, certamente a velocidade inicial dos maracatus, dos ranchos de reis (depois carnavalescos) e das escolas de samba – que nasceram para legitimar o gênero que lhes forneceu a essência”, conclamando assim a interculturalidade presente em todo o processo de evolução do ritmo samba que passou a ser parte integrante da cultura musical brasileira. Fundamentando-nos em uma das pesquisas feitas por Nei Lopes, encontramos a seguinte informação:


Sobre as origens africanas do samba veja-se que, no início do século XX, a partir da Bahia, circulava uma lenda gostosamente narrada pelo cronista Francisco Guimarães, o Vagalume, no clássico Na roda do samba, de 1933, segundo a qual o vocábulo teria nascido da língua iorubá: san  pagar, e gbá, receber [...]. Mas o vocábulo é sem dúvida africaníssimo. E não iorubano, mas legitimamente banto. (2005, [s/p]).

O samba, sua musicalidade e cadência passaram a ser um cartão de visitas do Brasil e disseminaram no seio de uma colônia que dava os primeiros passos para se constituir como nação, a essência da cultura musical brasileira, desta forma foi se espalhando de maneira contagiante por todo o país, no Rio de Janeiro a maneira mais tradicional ficou  conhecida como  samba de partido alto, um desafio entre dois ou mais participantes, muito fiel às canções do batuque angolano. Ainda para complementarmos as informações sobre a raiz da palavra samba e como se deu a expansão desse ritmo e de muitos outros que dele se originaram pelo Brasil, continuamos por citar Lopes:

 
Samba, entre os quioscos (chokwe) de Angola, é verbo que significa “cabriolar, brincar divertir-se como cabrito”. Entre os bacongos angolanos e congueses o vocábulo designa “uma espécie semba, rejeitar, separar, que deu origem ao quibondo di-semba, umbigada elemento coreográfico fundamental do samba rural, em seu amplo leque de variantes, que inclui, entre outras formas, batuque, baiano, coco, calango, lundu, jongo etc...” [...] Daí que em conclusão todos os ritmos e gêneros existentes na musica popular brasileira de consumo de massa, quando não reprocessamento de formas estrangeiras, se originam do samba ou são com ele aparentados. ( LOPES, 2005, p. 2-3).


Outro importante registro para que saibamos um pouco mais sobre o samba no Brasil é uma contribuição da Literatura, que mesmo se valendo da ficção no livro O Cortiço (1997), de Aluisio Azevedo, descreve um pagode na casa da personagem Rita Baiana, e no dito festejo, toca-se um tal ‘chorado’ da Bahia, um lundu, que certamente é um dos ancestrais do nosso samba, legatário dos batuques de Angola e do Congo.

Acreditamos que a cultura musical africana é sem dúvida um dos meios que oferece a coletividade possibilidades de ampliação de conhecimentos para a ruptura dos preconceitos contra as tradições do outro[7], como constituintes de sua própria cultura. Portanto, não se pode admitir que o branqueamento ou a desafricanização[8] da cultura brasileira sobrepuje o grande valor e a multiplicidade cultural com a qual nos brindou a tradição africana. Almejamos que, não precisem existir mais leis que nos proíbam de sermos racistas ou que nos obriguem a estudar a história e a literatura africana. Tudo isso deve ser aprendido e respeitado cotidianamente por serem informações preciosas a que todos devem ter acesso e o compromisso de repassar às próximas gerações.

Assim, compreendemos que não há lugar para desigualdades, pensamentos mesquinhos e a eterna submissão ao sistema hegemônico, pois as pessoas que atingirem um grau maior de compreensão, sejam elas de qualquer nível social ou qualquer que seja sua escolaridade, devem ter a clareza de que só existe uma raça: a humana. “[...] Não existe relação necessária entre características físicas de grupos humanos e suas formas culturais, nem tampouco a multiplicidade das culturas implica quebra da unidade biológica da espécie humana”(SANTOS,2006,p.15).




[1] Iara Maria dos Anjos Vieira, graduada em Letras pela UNEMAT – Universidade do Estado de Mato Grosso, Campus de Tangará da Serra-MT, pós graduanda em Metodologia de Ensino de Língua Estrangeira FID – Faculdades Integradas de Diamantino – MT, membro do Grupo de Pesquisa “Caminhos da Linguagem: Língua, Literatura, Ensino e Pesquisa” da UNEMAT, Campus de Tangará da Serra-MT e mestranda em Educação pela UNEMAT – Universidade do Estado de Mato Grosso, Campus Universitário de Cáceres – MT. E-mail: iara_anjosvieira@hotmail.com
 
[2] Liduína Maria e Sousa Pereira, graduanda em Letras pela UNEMAT - Universidade do Estado de Mato Grosso - MT, Campus de Tangará da Serra-MT, pós graduanda em Metodologia de Ensino de Língua Estrangeira pela FID – Faculdades Integradas de Diamantino - MT e membro do Grupo de Pesquisa “Caminhos da Linguagem: Língua, Literatura, Ensino e Pesquisa” da UNEMAT, Campus de Tangará da Serra-MT. E-mail: lidu_tga@hotmail.com
 
[3] Raquel Nunes Moreira Passamani Ramos, graduada em Letras pela UNEMAT – Universidade do Estado de Mato Grosso – MT, Campus de Tangará da Serra-MT, pós graduanda em Metodologia de Ensino de Língua Estrangeira FID – Faculdades Integradas de Diamantino - MT e membro do Grupo de Pesquisa “Caminhos da Linguagem: Língua, Literatura, Ensino e Pesquisa” da UNEMAT, Campus de Tangará da Serra-MT. E- mail: raquelnunesramos@gmail.com
 
[4] Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
[5] Ato de batucar. Nome geral que se dá a todas as danças acompanhadas por instrumentos de percussão. Inicialmente, o batuque era uma dança de origem africana, com palmas e sapateado, em que se formava uma roda com um solista no centro. Os solistas convidavam seus substitutos por meio de uma umbigada. (DICIONÁRIO, online de Português, 2012, [s/p]).
 
 6 “[...], personagens que projetavam simbolicamente em nossa terra a autoridade dos muene-e- Kongo, com quem os exploradores quatrocentistas portugueses trocavam credenciais em suas primeiras expedições à África subsaariana.” (LOPES, 2005, p.01).
 
[7] Citamos “outro” como referencial de sujeito que, não tem sua cultura aceita e, portanto, não é reconhecido igualitariamente como indivíduo constituído dentro de uma sociedade.
 
[8] [...] “e o processo por meio do qual se tira ou procura tirar de um tema ou indivíduo os conteúdos que o identificam como de origem africana.” (LOPES, 2005, p.08).
 
 
 
Referência Bibliográfica

 


FRANÇA, Cecília de Campos. Biologia e linguagens em busca dos modos de viver e pensar a ciência com novos talentos na escola. Tangará da Serra, 2012. (Apostila).
GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Ltc, 1989.
LOPES, Nei. História e cultura africana e afro brasileira. São Paulo: Barsa Planeta, 2008.
 
LOPES, Nei. A presença africana na música popular brasileira. Espaço Acadêmico, Uberlândia, v.5, 2005.
SANTOS, José Luiz. O que é cultura. 12ºreinpr, da 16º ed, de 1996. São Paulo: Brasiliense, 2006.

 
Referência Consultada

AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. 3º ed. São Paulo: Ática, 1997. Consulta em: 14 de fev. de 2012.
BRASIL. Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Brasília: IBGE, 2012. Disponível em: < www.ibge.gov.br> acesso em: 14 de fev. de 2012.
DICIONÁRIO, online de Português. Disponível em: < www.dicio.com.br > acesso em: 14 de fev. de 2012.


 

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