UNIVERSIDADE DO ESTADO DE MATO GROSSO- UNEMAT
CAMPUS UNIVERSITÁRIO DE TANGARÁ DA SERRA-MT
NÚCLEO DE EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS TABEBUIA AUREA
PROGRAMA NOVOS TALENTOS
Iara Maria dos Anjos Viera[1]
Liduína Maria de Sousa Pereira[2]
Introdução
Este artigo é o
resultado parcial de uma pesquisa historiográfica que, tenciona mostrar algumas
das influências de nossas origens, sobretudo a africana, e as contribuições
deixadas por elas na cultura brasileira, especialmente no que diz respeito à
música e a dança. Para desenvolvê-lo, utilizamos como fonte de pesquisa uma considerável
produção bibliográfica, entre outros nos subsidiaram: Lopes (2005), Munanga (2005),
Conceição & Conceição (2010) e Santos (2006).
Pretendemos neste
trabalho, comentar algumas das maiores marcas que a mãe África trouxe até nossa
música nos porões dos navios e dentro da alma e da sensibilidade cultural de
cada um de seus filhos, falamos em algumas, pois este espaço não nos permite
que se enumerem todas, o que demandaria anos de pesquisa.
Sabendo-se que o Brasil
é um país no qual ainda existem várias formas de preconceitos, e sendo o
preconceito racial – velado - talvez a forma mais perigosa e perversa desta
mazela social, acreditamos que, trazendo à tona mais esclarecimentos que
conscientizem as pessoas sobre a riqueza, importância e qualidade dos ritmos e
danças criados por nossos ancestrais africanos, possam de alguma maneira contribuir
para que se minimize o desconhecimento total ou parcial daquele que não percebe
que sua matriz africana é parte constitutiva de sua identidade étnica e de
nossa diversidade cultural. “Não ha superioridade ou inferioridade de culturas
ou traços culturais de modo absoluto, não há nenhuma lei natural que diga que
as características de uma cultura a façam superior a outras.” (SANTOS, 2006, p.
17).
Não
se pode negar que os outros povos que contribuíram para a formação de nossa
multiplicidade cultural, nos deixaram uma herança marcante. “[...] Além disso,
a população nacional foi constituída com contingentes originários de várias
partes do mundo. Tudo isso se reflete no plano cultural.” (SANTOS, 2006, p.
18), contudo optou-se aqui por uma ênfase na cultura africana, por acreditarmos
ser esta vertente a mais emblemática e que melhor caracteriza o povo
brasileiro, ou seja, um povo vibrante e predisposto à alegria, que embora não
sendo grande conhecedor e/ ou cultuador de suas origens, a conduz em seu âmago.
“Uma das coisas que quase todo mundo conhece, mas não sabe muito bem como
demonstrar é que a política de um país reflete o modelo de sua cultura.”
(GEERTZ, 1989, s/p.).
Quando se fala em
diversidade, logo vem à mente as questões sociais e étnicas, mas não vamos priorizar
aqui os males dos preconceitos, e sim, a nossa herança cultural africana. “A
cultura tradicional africana não conhece a arte voltada apenas para o prazer
‘estético’. Nela, a ação artística tem sempre uma finalidade concreta.” (LOPES,
2008, p. 80).
Acreditamos que a música e a dança, como arte,
servem para alegrar o corpo e a alma de qualquer pessoa sensível a exposição rítmica.
Assim, iremos ater-nos em falar da música africana, essa arte que, expandida à
custa de muita dor e por isso mesmo usada para curá-la, só transmite
contentamento. Além disso, a melodia africana contribuiu para a construção
linguística e cultural em todo o mundo “A origem africana está presente no que
é feito de mais importante na música popular contemporânea mundial.” (LOPES,
2008, p. 80).
A população brasileira
originou-se de uma pluralidade étnica resultante de um processo histórico que
colocou frente a frente três povos completamente diferentes: os indígenas (que
eram milhões e de várias etnias – nos idos de 1500), os europeus (inicialmente
os portugueses, seguidos por holandeses e franceses) e os africanos, oriundos
de várias partes da África, em especial da Nigéria e Togo vieram os Nagôs de língua iorubá;
de Benim, antigo Daomé, chegaram os Fons ou Minas, de língua jeje e de Angola, Moçambique, Zimbábue e
Congo entre outros os Bantos de língua banta.
Os indígenas sofreram
um verdadeiro genocídio, contudo, os africanos foram sem dúvida, martirizados
pelos colonizadores europeus. Eram sequestrados em suas terras, jogados em
navios negreiros, e quando sobreviviam a todas as injurias da penosa travessia
eram comercializados como qualquer mercadoria nas praças, feiras ou mercados
públicos no Novo Mundo.
Porém, toda essa
atrocidade, não apagou dos sobreviventes uma de suas características mais
louváveis, sua musicalidade. A cultura trazida de seus mais remotos ancestrais foi
gradativamente se espalhando por todo o continente e deixando marcas indeléveis
por toda a América, Caribe e Antilhas.
Podemos constatar
através de pesquisas do IBGE[4],
que um grande contingente de descendentes diretos ou indiretos de africanos – a
maioria- neste país em algum dos ramos de sua genealogia tem sangue africano
correndo em suas veias, mas por ignorância ou preconceito, nega este fato ou
não se reconhece como negro. Para referenciamos as questões identitárias,
citamos Munanga:
O conceito de identidade evoca
sempre os conceitos de diversidade, Isto é, de cidadania, raça, etnia, gênero,
sexo,... Com os quais ele mantém relações ora dialéticas, ora excludentes,
conceitos esses também envolvidos no processo de construção de uma educação
democrática. (2005, s/p).
Hoje no Brasil muito se
discute sobre a diversidade cultural, mas será que a sociedade conhece e
respeita essa diversidade? Com tantas crenças, comportamentos e valores tão
múltiplos? “É importante considerar a diversidade cultural interna à nossa
sociedade; isso é de fato essencial para compreendermos melhor o país em que
vivemos.” (SANTOS, 2006, p. 19). Acreditamos que em muitos casos a sociedade, ainda
não conhece boa parte dessa multiculturalidade afro brasileira .
O
reconhecimento das diferenças é singular, pois em um país continental como o
Brasil, fazer uma junção ou reconhecer as questões culturais é muito complexo,
pois em cada região existe uma cultura com todos os seus valores que implicam
diretamente na do outro. Assim, não é muito comum percebermos toda essa
variação, mas sim, uma imposição de padrões que interfere diretamente na
construção da identidade cultural das etnias como, por exemplo, dos nativos
brasileiros e dos brasileiros de descendência africana.
A afirmação da identidade e a
marcação da diferença implicam sempre as operações de incluir e de excluir.
Como vimos, dizer ‘o que somos’ significa também dizer ‘o que não somos’. A
identidade e a diferença se traduzem assim em declarações sobre quem pertence e
sobre quem não pertence, sobre quem está incluído e quem está excluído. (SILVA,
[s/p.]).
Desta forma, buscamos
nesta pesquisa utilizar a música como um vetor de chamamento à luz da
informação, do conhecimento e da conscientização de que, reconhecendo-nos em
nossas origens, com misturas étnicas, agregamos à nossa cultura o valor
inestimável que ela tem, tornando-nos conhecedores de nossa identidade e
ocupando o lugar social de sujeitos históricos que somos.
1. O ressoar dos batuques africanos na cultura musical brasileira[5]
A música brasileira tem
uma grande contribuição dos batuques da África, pois foi graças aos tambores
que, batiam para invocar divindades, ressoavam para exaltar a glória de um povo,
um nascimento, para manifestar a tristeza de uma morte; para o que fosse os africanos
deram a sua contribuição para a arte de cantar e de dançar no Brasil. “Na época
colonial, a maior ou menor liberdade dos senhores em permitir aos escravos a
prática de folguedos de sua tradição era decisiva na criação de uma música
menos ou mais africana [...].” (LOPES, 2008, p. 81).
As primeiras
manifestações musicais africanas das quais temos notícia, tiveram lugar nas
senzalas ou nos campos de trabalho, quando nossos ancestrais negros, entoavam
cantos de lamento ou louvação que alimentavam suas crenças. Utilizavam os
parcos utensílios de que dispunham, numa tentativa frenética de contactar as entidades
espirituais, utilizando para isso o atabaque, que é chave nos rituais de
candomblé para louvar os orixás.
As canções que
embalavam o sono dos herdeiros dos latifúndios imensuráveis e também de todos
os homens, mulheres e crianças que ali trabalhavam até a exaustão, eram as
cantigas solfejadas pelas negras, muitas vezes amas de leite dos filhos de seus
senhores, canções estas que muito contribuíram para o processo de diversidade
linguística.
No período de
colonização brasileira, começaram a se popularizar as congadas, festas de
coroação dos reis do Congo[6]. “Esses
festejos realçados por muita música e dança, seriam não só uma recriação das
celebrações que marcavam a entronização dos reis na África como uma
sobrevivência do costume dos potentados bantos [...].” (LOPES, 2005, [s/p]). Ainda
de acordo com o pesquisador, “esses cortejos [...] na forma de congadas,
congados ou cucumbis (festa ligada aos ritos de passagem para a puberdade),
eram influenciados pela espetaculosidade das procissões católicas do Brasil
colonial e imperial”.
Podemos inferir que
quando o mesmo pesquisador diz “[...] construíram, certamente a velocidade
inicial dos maracatus, dos ranchos de reis (depois carnavalescos) e das escolas
de samba – que nasceram para legitimar o gênero que lhes forneceu a essência”,
conclamando assim a interculturalidade presente em todo o processo de evolução
do ritmo samba que passou a ser parte integrante da cultura musical brasileira.
Fundamentando-nos em uma das pesquisas feitas por Nei Lopes, encontramos a
seguinte informação:
Sobre as origens
africanas do samba veja-se que, no início do século XX, a partir da Bahia,
circulava uma lenda gostosamente narrada pelo cronista Francisco Guimarães, o
Vagalume, no clássico Na roda do samba,
de 1933, segundo a qual o vocábulo teria nascido da língua iorubá: san pagar, e gbá,
receber [...]. Mas o vocábulo é sem dúvida africaníssimo. E não iorubano, mas
legitimamente banto. (2005, [s/p]).
O
samba, sua musicalidade e cadência passaram a ser um cartão de visitas do Brasil
e disseminaram no seio de uma colônia que dava os primeiros passos para se
constituir como nação, a essência da cultura musical brasileira, desta forma
foi se espalhando de maneira contagiante por todo o país, no Rio de Janeiro a
maneira mais tradicional ficou conhecida
como samba de partido alto, um desafio
entre dois ou mais participantes, muito fiel às canções do batuque angolano. Ainda
para complementarmos as informações sobre a raiz da palavra samba e como se deu
a expansão desse ritmo e de muitos outros que dele se originaram pelo Brasil,
continuamos por citar Lopes:
Samba, entre os quioscos (chokwe) de
Angola, é verbo que significa “cabriolar, brincar divertir-se como cabrito”.
Entre os bacongos angolanos e congueses o vocábulo designa “uma espécie semba, rejeitar, separar, que deu origem
ao quibondo di-semba, umbigada
elemento coreográfico fundamental do samba rural, em seu amplo leque de
variantes, que inclui, entre outras formas, batuque, baiano, coco, calango,
lundu, jongo etc...” [...] Daí que em conclusão todos os ritmos e gêneros
existentes na musica popular brasileira de consumo de massa, quando não
reprocessamento de formas estrangeiras, se originam do samba ou são com ele
aparentados. ( LOPES, 2005, p. 2-3).
Outro importante
registro para que saibamos um pouco mais sobre o samba no Brasil é uma
contribuição da Literatura, que mesmo se valendo da ficção no livro O Cortiço (1997), de Aluisio Azevedo, descreve um pagode na casa da personagem Rita
Baiana, e no dito festejo, toca-se um tal ‘chorado’ da Bahia, um lundu, que
certamente é um dos ancestrais do nosso samba, legatário dos batuques de Angola
e do Congo.
Acreditamos que a
cultura musical africana é sem dúvida um dos meios que oferece a coletividade
possibilidades de ampliação de conhecimentos para a ruptura dos preconceitos
contra as tradições do outro[7],
como constituintes de sua própria cultura. Portanto, não se pode admitir que o
branqueamento ou a desafricanização[8] da
cultura brasileira sobrepuje o grande valor e a multiplicidade cultural com a
qual nos brindou a tradição africana. Almejamos que, não precisem existir mais leis
que nos proíbam de sermos racistas ou que nos obriguem a estudar a história e a
literatura africana. Tudo isso deve ser aprendido e respeitado cotidianamente
por serem informações preciosas a que todos devem ter acesso e o compromisso de
repassar às próximas gerações.
Assim,
compreendemos que não há lugar para desigualdades, pensamentos mesquinhos e a eterna
submissão ao sistema hegemônico, pois as pessoas que atingirem um grau maior de
compreensão, sejam elas de qualquer nível social ou qualquer que seja sua
escolaridade, devem ter a clareza de que só existe uma raça: a humana. “[...]
Não existe relação necessária entre características físicas de grupos humanos e
suas formas culturais, nem tampouco a multiplicidade das culturas implica
quebra da unidade biológica da espécie humana”(SANTOS,2006,p.15).
[1] Iara Maria dos Anjos Vieira,
graduada em Letras pela UNEMAT – Universidade do Estado de Mato Grosso, Campus de Tangará da Serra-MT, pós
graduanda em Metodologia de Ensino de Língua Estrangeira FID – Faculdades
Integradas de Diamantino – MT, membro do Grupo de Pesquisa “Caminhos da
Linguagem: Língua, Literatura, Ensino e Pesquisa” da UNEMAT, Campus de Tangará da Serra-MT e
mestranda em Educação pela UNEMAT – Universidade do Estado de Mato Grosso, Campus Universitário de Cáceres – MT.
E-mail: iara_anjosvieira@hotmail.com
[2] Liduína Maria e Sousa Pereira,
graduanda em Letras pela UNEMAT - Universidade do Estado de Mato Grosso - MT, Campus de Tangará da Serra-MT, pós
graduanda em Metodologia de Ensino de Língua Estrangeira pela FID – Faculdades
Integradas de Diamantino - MT e membro do Grupo de Pesquisa “Caminhos da
Linguagem: Língua, Literatura, Ensino e Pesquisa” da UNEMAT, Campus de Tangará da Serra-MT. E-mail:
lidu_tga@hotmail.com
[3] Raquel Nunes Moreira Passamani
Ramos, graduada em Letras pela UNEMAT – Universidade do Estado de Mato Grosso –
MT, Campus de Tangará da Serra-MT,
pós graduanda em Metodologia de Ensino de Língua Estrangeira FID – Faculdades
Integradas de Diamantino - MT e membro do Grupo de Pesquisa “Caminhos da
Linguagem: Língua, Literatura, Ensino e Pesquisa” da UNEMAT, Campus de Tangará da Serra-MT. E- mail: raquelnunesramos@gmail.com
[4] Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística
[5] Ato de
batucar. Nome geral que se dá a todas as danças acompanhadas por instrumentos
de percussão. Inicialmente, o batuque era uma dança de origem africana, com
palmas e sapateado, em que se formava uma roda com um solista no centro. Os
solistas convidavam seus substitutos por meio de uma umbigada. (DICIONÁRIO,
online de Português, 2012, [s/p]).
6 “[...], personagens que projetavam
simbolicamente em nossa terra a autoridade dos muene-e- Kongo, com quem os exploradores quatrocentistas
portugueses trocavam credenciais em suas primeiras expedições à África
subsaariana.” (LOPES, 2005, p.01).
[7]
Citamos “outro” como referencial
de sujeito que, não tem sua cultura aceita e, portanto, não é reconhecido
igualitariamente como indivíduo constituído dentro de uma sociedade.
[8] [...] “e o processo por meio do
qual se tira ou procura tirar de um tema ou indivíduo os conteúdos que o
identificam como de origem africana.” (LOPES, 2005, p.08).
Referência Bibliográfica
FRANÇA, Cecília de Campos. Biologia e linguagens em busca dos modos de viver e pensar a ciência com novos talentos na escola. Tangará da Serra, 2012. (Apostila).
GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Ltc, 1989.
LOPES, Nei. História e cultura africana e afro brasileira. São Paulo: Barsa Planeta, 2008.
LOPES, Nei. A presença africana na música popular brasileira. Espaço Acadêmico, Uberlândia, v.5, 2005.
SANTOS, José Luiz. O que é cultura. 12ºreinpr, da 16º ed, de 1996. São Paulo: Brasiliense, 2006.
Referência Consultada
AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. 3º ed. São Paulo: Ática, 1997. Consulta em: 14 de fev. de 2012.
BRASIL. Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Brasília: IBGE, 2012. Disponível em: < www.ibge.gov.br> acesso em: 14 de fev. de 2012.
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